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Talvez Uma Última Vez

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Era noite. A rua estava deserta. Ou quase isso. Um carro acelerou não tão distante, uma ou duas ruas depois, talvez. Os passos dela, que já estavam acelerados, quase se transformaram em uma corrida. Mas ela se conteve. Não era para tanto. Ela não podia sucumbir ao desespero, mesmo que ele fosse quase tão real quando o chão de terra sob seus pés ou o céu estrelado sobre sua cabeça.

Uma moto devagar ao seu lado quase a fez saltar de susto. Precisou se esforçar para empurrar só com os músculos o coração de volta da garganta para o lugar dele. Ainda bem que era involuntário, pois àquela altura da noite, com seus nervos daquele jeito, e seu corpo inteiro pulsando loucamente, ela não saberia distinguir o exato lugar onde deveria recolocar seu coração. Biologia não era seu forte. Ainda bem.

Tudo a assustava. Um farol, uma buzina, um motor acelerado, passos e até a silhueta de uma bicicleta. Mesmo distante. Não importava. Tinha medo. E o medo não é desses sujeitos que se deixam calar. Mesmo sem gritar, faz questão de sussurrar bem perto, nem sempre claro, mas ali, constante, palavras, ideias, sugestões, ameaças, tudo com o qual ela estava acostumada a vida toda.

Tudo a assustava. Tinha medo. A rua parecia interminável. Mais ainda naquela noite. Uma noite como outra qualquer, para a maioria das pessoas.

Para o sujeito que tentara sem sucesso se aconchegar nela no ônibus lotado, e que agora deveria estar sozinho estirado num sofá bebendo uma cerveja quente. Para o homem de terno que a olhava no restaurante com aquela psicótica fome nos olhos, e que agora deveria estar pensando em sua própria impotência. Para os dois jovens que gritaram palavras vulgares quando ela passou por eles na rua, e que agora deveriam estar se masturbando, cada um sozinho em seu quarto, navegando em algum site pornográfico.

Uma noite como outra qualquer, para a maioria das pessoas. Mas não para ela. “E essa rua que não termina?”, pensou num raro momento de lucidez, quando conseguiu organizar as ideias a ponto delas se tornarem palavras.

A rua estava quase acabando. Faltavam poucos metros para o portão laqueado de branco, de uma pureza tão incrível, tão limpa, tão divina! Ela nunca tinha pensado sobre os portões do inferno antes, mas naquele momento, imaginou que, por uma questão de publicidade, ele seria parecido com aquele portão. Afinal, quem entraria num lugar com os portões carbonizados, cheirando a enxofre? Não, não! Definitivamente, os portões do inferno deveriam ser brancos, cheiroso, quase brilhantes de tão límpidos. Sorriu quando imaginou o Sr. do Inferno discutindo se laqueado ou não com alguma decorador infernal.

Foi seu último momento de leveza antes de se colocar diante daquele portão laqueado de branco, entre as duas partes de um muro de um verde gasto pelo tempo, e respirar profundamente. Era a hora de voltar para casa. Para seu lar. Para o seu inferno. Já tinha tentado ligar para a polícia inúmeras vezes, e ido à delegacia outras tantas vezes, mas nada adiantara. Nas últimas vezes, seus gritos de socorro ao telefone viraram piada dentro de casa. Seu lar. Seu inferno. Respirou novamente. Profundamente. Talvez uma última vez. Sentiu o ar entrar em seus pulmões e enchê-la de vida. Uma vida que ela sonhara a vida toda, mas nunca tinha tido. “Por que fazem isso comigo?”, dizia ela dentro de casa. “Quer dizer que ninguém vai me ajudar?”, perguntou muitas vezes aos policiais. “Por quê?”, questionou até Deus. Mas nunca obteve resposta. De ninguém. Girou a chave e entrou. Em sua casa. Seu lar. Seu inferno. Talvez uma última vez.

*O Artigo 5° da Lei Maria da Penha (Lei no 11.340/06) explica que se “Configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”, no âmbito da unidade doméstica, da família ou em qualquer relação íntima de afeto. (Lei n° 11.340 de 07 de agosto de 2006, publicada em DOU n° 151 de 08 de agosto de 2006).

*No Brasil, 1 mulher é estuprada a cada 11 minutos e a média de relatos de agressão entre janeiro e junho de 2015 era de 179 por dia.

*Segundo o Dossiê 2015 do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ), em 2014, 57.232 mulheres foram vítimas de violência física (homicídio, tentativa de homicídio e lesão corporal); 5.311 foram vítimas de violência sexual (estupro e tentativa de estupro); 7.319, vítimas de violência patrimonial (dano, violação de domicílio e supressão de documento); 41.509, vítimas de violência moral (calúnia, difamação, injúria); 58.057, vítimas de violência psicológica (ameaça e constrangimento ilegal).

*No Dossiê Mulher 2015, Cabo Frio, Rio das Ostras, Macaé e Búzios estão entre as cidades do Estado com maiores índices de tentativas de homicídio contra as mulheres. A cada 10 mil mulheres residentes, entre 55 e 100 mulheres são agredidas na Região dos Lagos. Rio das Ostras, Cabo Frio e Búzios estão entre as cidades com maiores índices de estupros do Estado; Macaé vem logo em seguida. Dos 11 tipos de violência contra as mulheres no Estado, Búzios só não aparece em primeiro lugar em 2 (homicídios e tentativas de estupro).

Tunan Teixeira é ator e repórter, e sua coluna semanal é publicada toda terça-feira no jornal Diário da Costa do Sol.

Tunan Teixeira é ator e repórter, e sua coluna semanal é publicada toda terça-feira no jornal Diário da Costa do Sol.

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