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Caderno D

Fantasia e realidade também contam a história da Princesinha do Atlântico

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As lendas e mitos de uma cidade, sem dúvida, formam uma ferramenta fundamental para que possamos conhecer melhor a cultura local de uma região. Os saberes coletivos ancestrais, representam a diversidade de um povo e revelam curiosidades, além de nos dar uma ideia de como era o pensamento das pessoas em determinadas épocas. As lendas urbanas ainda existem e são pequenas histórias fabulosas, que são repassadas de pessoa em pessoa, narradas de uma forma fantasiosa, mas sempre com um ‘tom’ que nos dá a sensação de que os personagens são pessoas que conhecemos, próximas a nós.

Em Macaé existem várias lendas incríveis, muito antigas, e muitas delas foram baseadas até em alguns fatos reais, mas acabam distorcidas ao longo do tempo. O que as torna ainda mais fascinantes.

Uma das mais conhecidas é a Lenda de Sant’Anna. Bom, para contarmos essa é preciso voltar no ano de 1634, quando os primeiros Jesuítas chegaram a Macaé. Nas margens do rio principal da cidade, foi criada uma fazenda agrícola, conhecida como Fazenda do Sant’Anna, pois era próximo ao Morro de Sant’Anna. Na base desse morro, existia um engenho, que além de produzir açúcar, também se fabricava farinha de mandioca. No alto desse morro, existia um colégio e ao lado uma capela com um pequeno cemitério. Essa era a configuração da época, só para tentarmos visualizar e assim começarmos a entender como tudo aconteceu. Conta a lenda que a Imagem de Sant’Anna, foi encontrada por pescadores, numa das Ilhas do Arquipélago, que inclusive dá o nome ao local. A Imagem foi trazida para o povoado e teria sido colocada no Altar Mor da Capela dos Jesuítas, só que misteriosamente no dia seguinte ela havia desaparecido. Dias se passaram e conseguiram encontrá-la e novamente ela passou a permanecer na capela. Esse estranho sumiço aconteceu várias outras vezes e na terceira, os devotos chegaram a conclusão que a Santa sentia saudade da ilha, que do Altar da Capela podia ser facilmente vista. O fato mexeu tanto com o povoado, que juntos decidiram reedificar o templo, modificando a fachada frontal para uma lateral e assim a visão da Santa não mais veria o mar e o arquipélago, de onde veio.

Uma outra história muito famosa no município, e que entrou para a lista de histórias incríveis, mesmo não sendo considerada efetivamente uma lenda, é sobre o drama pessoal de um homem chamado Manoel da Motta Coqueiro, que foi injustamente condenado à morte e a partir da sua história a pena de morte no Brasil foi extinta. Tudo aconteceu em meados do século XIX, quando a região em torno de Campos era uma potência agrícola e ao mesmo tempo o país vinha acabando com o tráfico de escravos, além de aprovar a primeira lei empresarial, onde o sistema de sesmarias, dava lugar à primeira lei de terras. Em 1852 um crime brutal chocou a cidade de Macabu as cidades vizinhas ficaram abaladas. Uma família de oito colonos é assassinada em uma das cinco propriedades de Manoel. Todos os indícios apontavam para o fazendeiro, que também era alvo de adversários políticos. As investigações caminhavam e Manoel ganhou um apelido, a Fera de Macabu. Coqueiro é julgado duas vezes e condenado à morte. Pela primeira vez no Brasil, um homem rico e com posição social destacada iria subir à forca; e subiu no dia 6 de março de 1855. Foi enforcado na Praça da Luz, em Macaé e na véspera de seu enforcamento, Manoel confessou a um padre a sua inocência e revela o nome do mandante do crime. Antes do ato, Coqueiro jurou mais uma vez inocência e rogou uma maldição sobre a cidade que o enforcava: viveria cem anos de atraso. Tempos depois a verdade veio à tona e a inocência de Manoel tinha sido comprovada. Abalado, o imperador Pedro II, decidiu então que a partir do ocorrido ninguém mais seria enforcado no Brasil.

E o feiticeiro de Macaé? Essa entra para o rol de histórias lendárias da cidade. Na década de 20, quando o município ainda era uma vila de pescadores, existia um homem, que podemos apelidar de João, já que a família do personagem existe, que tinha um grande domínio sobre a sociedade macaense. Um poder não de ordem monetária ou dono de muitas terras, mas um poder sobrenatural. Diziam na época que João tinha poderes de se transformar em qualquer tipo de animal. Temido pelas pessoas, o feiticeiro se apaixonou pela filha de um fazendeiro, que tinha uma beleza indescritível. Ela não o achava atraente e resolveu então, aproveitar suas habilidades e lançou uma maldição dizendo: ‘Todo aquele que o anel da noiva lhe dar sua vida consumida será’. O tempo foi passando e a moça nunca mais conseguiu casar. Quando ficava noiva, seus pretendentes morriam de doenças misteriosas.

A Lenda da Noiva da Ponte é um marco também na rica história de Macaé. Tudo se passou na antiga Ponte Velha, que era o único caminho que levava à população do centro da cidade para a Barra. Nesse trecho sempre estava uma moça loira e muito bonita, que tinha verdadeira loucura para se casar. Um noivo rico passou a fazer parte da sua história e logo que o casamento foi anunciado, a moça começou a procurar um vestido que tivesse a cara dela. Conseguiu, após muito procurar e quando estava voltando para casa de ônibus, o motorista perdeu o controle e o veículo caiu justamente da ponte. Todos se salvaram, mas para a aflição da noiva, seu vestido havia ficado dentro do ônibus. Resolveu nadar até lá e desde então nunca mais ninguém a encontrou. Relatos afirmam que o acidente realmente aconteceu, e a partir do ocorrido uma lenda surgiu, já que vários motoristas que percorreram o trecho na madrugada, afirmaram ter visto uma noiva loira caminhando pelo ponte e muitos dizem vê-la pedindo carona.

Muitos fatos marcantes, que realmente aconteceram em Macaé, ficaram para sempre no imaginário das pessoas que com o passar do tempo, contaram para seus parentes e os mesmos repassavam para suas próximas gerações. Detalhes fantasiosos ou não, as lendas muitas vezes surgem baseadas em fatos e com o tempo, entram para a lista de incríveis histórias. Verdade ou não, as lendas macaenses contam muito sobre a história da cidade. Detalhes que permeavam as fantasias, revelavam o cotidiano daqueles que descobriram Macaé e que começaram a escrever os rumos de sua existência.

Mariana Abrantes

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