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Caderno D

Até aonde a tecnologia pode ser uma aliada?

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Imaginem a cena: você está dormindo e desperta, mas sem abrir os olhos, tateia até a mesinha de cabeceira e pega o celular. Abre os olhos e já vai abrindo as redes sociais e vendo o que as pessoas estão postando. Levanta, vai ao banheiro, depois vai tomar o café da manhã, mas antes passa na mesinha de cabeceira novamente e busca o celular e aí sim vai tomar o café, na maioria das vezes, sem nem ao menos olhar o que está comendo. A partir daí, o celular ficará em suas mãos por muitas horas e irá acompanhá-lo no trabalho, no almoço, no cafezinho da tarde, na volta para casa, no jantar, uma pequena pausa para um banho e ele volta para você até a hora de dormir. Parece uma rotina estranha? Parece um exagero? Ou você se identificou de cara com essa descrição?

Em se tratando do mundo digital que invadiu as nossas vidas, essas não parecem ser perguntas ofensivas e muitas vezes são respondidas com muita naturalidade e sem a percepção que o assunto é mais sério do que imaginamos.

Antes de mais nada, temos que concordar, que o imediatismo que o mundo digital nos oferece é fascinante. Estar conectado se tornou tão comum quanto comer ou dar um passeio. Mas como sabemos, tudo o que é demais, acaba sofrendo um desgaste e essa conta quem irá pagar é o seu cérebro. Isso mesmo! A dependência digital cresceu e ainda cresce de uma maneira, que estamos chegando ao ponto de procurarmos médicos que solucionem essas questões, que por muitas vezes, afetam de forma drástica o andamento da nossa vida.

Para falar desse novo universo que desponta no dia a dia de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo, o professor de psicologia Jefferson Azevedo, se dedicou a estudar esse novo mundo e o resultado disso foi a construção de um livro, que será lançado nesta sexta-feira(03), cujo o tema é mais que bem vindo: A Dependência Digital.

Durante seus estudos sobre psicologia clínica, o professor percebeu a necessidade de pesquisar mais a fundo sobre o tema, pois na época, muitos pacientes apresentavam sinais de dependência em tecnologias digitais, o que fez com que o estudioso ficasse mais atento ao assunto. Um outro ponto que alavancou seu projeto, foi perceber que existe pouca referência teórica sobre essa questão. “Os grandes autores da psicologia desenvolveram suas teorias no final do século XIX e meados do século XX e não traziam em sua base as influências das tecnologias sobre o desenvolvimento psíquico, formação de identidade e tratamento para os portadores de dependência digital. O tratamento ainda utilizado são adaptações de outros transtornos psíquicos.”, explica o autor.

Muito se questiona sobre a origem de tudo isso, como uma pessoa passa a ser considerada um dependente e como isso começa a se fazer presente no cotidiano. Para o professor, o avanço das tecnologias de forma massiva e constante, em conjunto com a prática de novos hábitos, pode ser catastrófico para as pessoas que tem mais pré disposição à dependência. “A globalização, aliada ao uso da internet, desterritorializa as concepções culturais e influenciam direta e indiretamente as formações identitárias e estabelece um sentido de pertencimento universal, assim, a dependência digital se caracteriza pelo uso excessivo da Internet e uma inabilidade que o sujeito possui para reprimir e controlar impulsos, provocando desconforto e sentimento de culpa. A dependência digital pode afetar o sujeito diminuindo sua capacidade profissional, acadêmica, social, econômica entre outras.” Conta o professor.

Mas como a psicologia explica essa dependência? Como ela pode, efetivamente, mudar a nossa conduta, as nossas relações e como tudo pode mudar, a partir do momento que não se busca uma saída, uma ajuda especializada? “Os dependentes em internet e redes sociais digitais usam-na como ferramenta para possibilitar e facilitar a comunicação, gerando sentimento de prazer e satisfação, o que pode acarretar um fator eliciador para a dependência. Estudos desenvolvidos demonstram que algumas variáveis relacionadas à baixa autoestima, insegurança, timidez, falta de pró-atividade são fatores que corroboram com uso excessivo. O grande malefício está relacionado aos prejuízos que o uso exagerado proporciona diminuindo a capacidade de interação face a face.”, revela Jefferson.

Em alguns países, a dependência digital já vem sendo considerada uma patologia psiquiátrica e tratamentos específicos para o transtorno, vem sendo empregados, muitas vezes de forma equivocada e gerando ainda mais sintomas nocivos. Para o professor, essa dependência ainda não pode ser considerada uma patologia, pois simplesmente não está incluída na Classificação Internacional das Doenças(CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais(DSM) da Associação Americana de Psiquiatria(APA), mas são vistas e tratadas como transtornos associados a ansiedade ou comportamento compulsivo. “ Em minha tese estou desenvolvendo um novo processo diagnóstico trazendo aspectos quantitativos relacionados ao tempo de utilização e aspectos qualitativos referentes ao comprometimento psicossocial.” conta.

Outra cena que podemos facilmente presenciar atualmente, são as inúmeras crianças com seus tablets e celulares, em todos os lugares. Entretidas, os pais gostam das tecnologias e até a usam, em alguns casos, como forma de prender a atenção dos pequenos, gerando algum tempo disponível de descanso na rotina adulta.

Se para nós, adultos, as novas tecnologias já estão imersas no nosso cotidiano, imaginem como isso é processado na vida de uma criança? O autor revela a importância de estar atento. “ A crianças passam a maior parte do tempo conectados sem um limite de tempo pré-estabelecido e sem a supervisão de um adulto sobre o conteúdo ou sites que estão sendo acessados. O estabelecimento de limites é de extrema importância para o desenvolvimento da personalidade da criança. Tudo que é excessivo acarreta algum comprometimento, e, por isso, o equilíbrio deveria ser valorizado na nossa cultura.” ressalta.

Mas se a tecnologia está aí para ser utilizada e também para proporcionar uma vida mais confortável, como podemos remediar a dependência? Existe um tempo, realmente seguro para estarmos ligados, já que ela está presente em todos os nossos passos durante as 24h? O professor explica que não existe um tempo ideal, mas a pergunta que devemos nos fazer é se o uso está trazendo algum tipo de comprometimento a vida da pessoa. Um sintoma simples, mas que pode ser um alerta sobre a dependência é: quando o barulhinho do recebimento de mensagem apita e você se sente ansioso, é bom avaliar de forma sincera, se já não é hora de se preocupar.

Lá no início do texto, lembra que mencionamos que esta conta poderá ser paga pelo seu cérebro? Pois é, a internet, as redes sociais e os jogos de todas as espécies, utilizam artifícios que dificultam o processamento de informações do córtex, que é a camada externa do cérebro, pois a dinâmica e a rapidez dos estímulos recebidos, além de uma multifragmentação causada por esse excesso de informações, esse processamento é dificultado, pois os sinais no meio eletrônico, propiciam uma superexposição, desgastando a nossa parte cognitiva e alterando o nível de atenção. Com isso a leitura se tornou algo superficial, além de inúmeros outros problemas facilmente percebidos. “Outro fator importante é a relação de contágio, pela qual o comportamento individual é diretamente influenciado, como no “efeito manada”: o discernimento e a vontade própria desaparecem por completo, passando, assim, a assumir uma identidade grupal. Mais do que encantar, as tecnologias digitais interferem nos processos de comunicação face a face. Verifica-se diferenças peculiares na comunicação interpessoal presencial, onde os interlocutores podem se observar diretamente no decorrer da comunicação, o que não ocorre na comunicação interpessoal mediada pelas tecnologias digitais.” Finaliza o professor.

Sobre o autor

Nasci em Nova Friburgo. Graduei-me em 1998 em Administração de Empresas pela UCAM de Nova Friburgo e Psicologia pela UNESA em 2004. Em 2005 mudei-me para Macaé onde comecei a trabalhar com Psicologia Clínica e Administração. No mesmo ano fiz MBA em Gestão Estratégica de Recursos Humanos.

Trabalhei também como professor no ensino médio e técnico até 2012. A partir de 2010 comecei a fazer Mestrado em Cognição e Linguagem pela Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro realizando pesquisa na área de dependência de tecnologias digitais. Ingressei como Professor no Ensino Superior na Faculdade Metropolitana São Carlos, onde, também fui Psicólogo Institucional e Coordenador de estágio no curso de Administração. Em 2013 entrei para a Universidade Estácio de Sá como Coordenador do Curso de Recursos Humanos, em Campos dos Goytacazes, e, professor, no Curso Psicologia em Macaé. Em 2013 terminei uma Pós graduação em Hipnose Clínica e Hospitalar. Em 2014 entrei para o Doutorado em Cognição e Linguagem na Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro dando continuidade em minha pesquisa sobre dependência de tecnologias digitais.

Hoje continuo trabalhando com Psicologia Clínica e como Educador no ensino Superior da Universidade Estácio de Sá em Macaé, além, da Coordenação da Clínica Escola de Psicologia do Campus.

O lançamento

O livro Dependência Digital será lançado nesta sexta-feira(03), na Universidade Estácio de Sá de Macaé, as 19h.

 

Mariana Abrantes

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