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Quais os percalços do cinema nacional?

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O cinema é apresentado ao mundo pelos Irmãos Lumière em 1895, num contexto em que os avanços da ciência e da tecnologia refletiram nas transformações dos meios de produção e implicaram na I Revolução Industrial na Europa e Estados Unidos. Graças a grandes estudiosos da história do cinema, como Paulo Emílio Sales Gomes, sabemos que os primeiros projetores chegaram ao Rio de Janeiro no final de 1896 e as primeiras filmagens foram realizadas em 1899 — momento em que o país havia acabado de abolir seu rudimentar sistema escravocrata de 1888, passando a viver numa república somente a partir de 1889.

 

A primeira década do cinema no Brasil sofre com a estagnação, de modo que não havia muitas salas, pois nem as capitais tinham energia elétrica. As exibições e a produção somente se iniciam a partir de 1907, quando o Rio de Janeiro passa a ter energia elétrica industrializada.

 

Os anos entre 1908 e 1911 são reconhecidos como a Era de Ouro do Cinema Nacional — período em que o cinema de ficção ganhava força em relação ao documental e foram produzidos vários títulos em gêneros como drama e comédia. Inicialmente, fizeram sucesso roteiros inspirados em crimes, como Os Estranguladores (1907), que conta a história de dois adolescentes que foram estrangulados no Rio de Janeiro em 1905.

Em 1930 rompem-se as fronteiras do Rio de Janeiro e São Paulo e cidades como Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte começam a engajar-se nos processos de produção de filmes. Nesse período nasceram os primeiros clássicos nacionais.

Tentativas de industrialização ocorreram na década de 1950, de modo que se chegou a ver uma indústria estável, com a produção de cerca de 30 filmes anuais. Nesse período fizeram sucesso os enredos pessimistas e depreciativos da realidade nacional.

O otimismo e a efervescência cultural, por outro lado, marcaram o início dos anos 1960. A música e a literatura iriam impactar o cinema. Jovens desconhecidos ganhariam o cenário nacional e se dedicariam ao desenvolvimento do Cinema Novo, que iria refletir a multiplicidade dos conflitos sociais que se estenderam pelas entranhas da nossa história.

Emergem daí títulos como O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) de Glauber Rocha. O primeiro deles é inspirado na peça teatral de Dias Gomes e narra a trajetória de um camponês que faz uma promessa num terreiro de candomblé e deve pagá-la numa igreja católica — o que propicia uma reflexão sobre o sincretismo presente na cultura brasileira. O segundo nos apresenta o percurso de um boiadeiro que se rebela contra um coronel e nos apresenta contextos aparentemente opostos: a fé e o cangaço.

O otimismo e a frutífera produção da primeira metade da década de 1960 recuariam diante do Golpe Militar de 1964 e seriam soterrados com o AI-5 em 1968. Depois dessa conjuntura, talvez seja possível dizer que o nosso cinema não voltaria a ser tão fértil. No entanto, esse assunto fica para uma próxima oportunidade.

Hollywood não é o único lugar no mundo em que se pode produzir cinema, somos capazes de avançar nesse sentido. Não faltam elementos na cultura brasileira para contribuir com a sétima arte. Basta que façamos os esforços de reconhecermos a nós mesmos. O filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é um exemplo disso e teve seu mérito reconhecido no Prêmio do Júri em Cannes na edição de 2019.

Douglas Henrique Antunes Lopes é professor do Centro Universitário Internacional Uninter. Atua nos cursos de Filosofia, Serviço Social e Pedagogia, além do Curso de Extensão Cineclube Luz, Filosofia e Ação

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