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Especialistas da UFRJ voltam a alertar sobre inexistência de tratamento precoce contra o coronavírus em sessão da Câmara de Macaé

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Em sessão ordinária da Câmara Municipal de Macaé realizada na manhã desta quarta-feira, 7, os vereadores receberam especialistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade da instituição (NUPEM/UFRJ), localizado na cidade, para esclarecer dúvidas sobre a pandemia do coronavírus.

O debate foi iniciado com uma longa explanação sobre diversos aspectos da pandemia, tanto no país quanto no município, que contou com a participação da reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho; do epidemiologista Amilcar Tanuri; do diretor geral do campus da UFRJ em Macaé, Irnak Marcelo Barbosa; e do diretor e do vice-diretor do NUPEM/UFRJ, Rodrigo Nunes da Fonseca e Francisco Esteves, respectivamente.

Respondendo a perguntas dos vereadores, os especialistas voltaram a garantir que não existe tratamento precoce contra o coronavírus, e que as melhores maneiras de combater o vírus são as medidas restritivas de distanciamento social, além do uso de máscaras e da higienização das mãos.

“Medicação precoce não existe. Nós estamos passando por uma pandemia, por um vírus, que tem as seguintes características. Como muitas viroses respiratórias, mais de 80% das pessoas infectadas terão uma boa evolução. Por tanto, nesse ambiente, as pessoas se aproveitam para tentar passar para a população esse medicamente A, B ou C é um medicamento eficaz. Por quê? Mesmo a água será eficaz. Nesse ambiente o charlatanismo se estabelece. Antes de ser reitora, eu tive a grande honra de ministrar uma aula aí no polo universitário em Macaé sobre a medicina baseada em evidências. Nós temos níveis de evidências, e nós temos que nos distanciar, nós como sociedade, sociedade moderna do século XXI, temos que nos distanciar dessa medicina que é baseada na experiência pessoal. ‘Porque os meus pacientes’, isso não é ciência. Isso é experiência pessoal. E isso, esse tipo de prática médica está abandonada no mundo há muitas décadas. E no nosso país também. Infelizmente ainda há, em todas as áreas, não só na área médica, profissionais que são resistentes ao avanço do conhecimento. Mas nós, como universidade, como a casa do saber, não podemos ser resistentes ao avanço do conhecimento, porque nós geramos conhecimento e somos críticos. E se tem uma coisa que temos certeza é que não sabemos tudo, mas temos certeza que tratamento precoce não existe. Tratamento precoce não existe. Existe prevenção. A prevenção é uso de máscara”, avaliou Denise Pires.

A reitora da UFRJ foi enfática ao garantir que, além da vacinação em massa da população, as medidas restritivas de prevenção são a única maneira de a sociedade prevenir o contágio do vírus e evitar o colapso das unidades de saúde.

“Educação do povo para o uso de máscaras, higienização das mãos, não aglomerar, só deixar funcionando nesse momento o que é essencial, e garantir segurança alimentar”, defendeu Denise Pires, que completou dizendo que “não há saída enquanto não tivermos a vacinação em massa a não ser o distanciamento social, o uso de máscaras, a higienização das mãos. Não há medicação porque essas medicações têm, inclusive, ocasionado efeitos colaterais. Vários pacientes dão entrada nos hospitais do Brasil da atualidade com problemas hepáticos, que são secundários ao uso crônico de invermectina, que não é uma medicação para ser usada de forma crônica, nós sabemos”.

O uso do chamado “Kit Covid”, defendido pelo presidente da república, Jair Bolsonaro (sem partido) e seus seguidores, também tema do debate pelos especialistas da UFRJ, que reforçaram dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que não há medicamentos para tratamento precoce da doença.

“Em relação ao Kit Covid, eu posso responder. Nós não temos evidência científica, embora alguns colegas da UFRJ tenham uma atuação dessa, mas eu tenho certeza que não é a posição da Denise. Não temos nada científico em relação a eles”, apontou o epidemiologista Amilcar Tanuri.

O especialista, que também é virologista chefe do Laboratório de Virologia Molecular do Departamento de Genética da UFRJ, citou também um estudo em que participou sobre o uso de cloroquina contra a zika para reforçar as diferenças entre os testes e ressaltar que o “tal kit” não tem qualquer evidência comprovada, sendo até mesmo perigoso para a saúde.

“Aliás, foi citado um trabalho meu com o zika, utilizando cloroquina, mas eu tenho que explicar que quando a gente faz esses testes em tubo de ensaio, você não está representando o indivíduo mesmo vivo. Por quê? As células que você usa para testar o zika com cloroquina não é a célula que o zika infecta a gente. Então, o efeito em cloroquina foi dado em concentrações que matariam uma pessoa, no tubo de ensaio. Isso é que é o problema. Você vai no tubo de ensaio, a cloroquina funciona. Você vai no tubo de ensaio; aliás, a annita, nos nossos experimentos, não funcionou nada. Nem invermectina. Nem pela parte científica. Aí vem a questão de alguns colegas que falam, ‘ah, a cloroquina ou a invermectina podem aumentar seu sistema imune’. Cadê a evidência? Quando você vai para a evidência e testes clínicos, aí que ferra tudo. Não tem evidência nenhuma. Todos os testes que foram feitos reprovaram o tal kit. Mas eu vou te dizer, o Kit Covid é um bom hospital, uma boa UPA (Unidade de Pronto Atendimento), com medicação tradicional que você tem que dar na situação de uma pneumonia viral, porque o coronavírus é uma pneumonia viral, tem que tratá-la com tanto”.

Ainda respondendo a dúvidas dos vereadores sobre a falta de eficácia de medicações presentes no tal Kit Covid, o epidemiologista da UFRJ ressaltou os perigos do uso desses remédios, lembrando que, além de não terem resultado comprovado contra o coronavírus, ainda podem piorar o estado clínico dos pacientes da doença.

“Quando você fala profilático, seria uma droga que impedisse que o vírus entrasse no seu organismo. Seria realmente um antiviral e isso realmente nós não temos. E usar, por exemplo, invermectina, annita ou cloroquina, profilaticamente, como você vê pessoas usando aí, é um absurdo! Por quê? Isso intoxica o fígado da pessoa, intoxica o rim. Quando ele pegar o vírus, já entra na CTI (Centro de Tratamento Intensivo) em piores condições. E a questão do [tratamento] precoce, nós vimos cidades que usaram em massa esse tratamento precoce e não alterou em nada o número de internações e mortes”, acrescentou o especialista.

Amilcar Tanuri disse ainda que testes clínicos realizados com esses medicamentos pela comunidade internacional mostraram que tais remédios não alteraram o curso da doença, mas explicou como vem sendo feito o tratamento medicamentoso nas unidades de saúde.

“Então, o tratamento precoce para a doença não existe. Você faz, na verdade, um tratamento sintomático para a doença aonde você vai tratando os sintomas conforme vão aparecendo. Porque pode não aparecer nenhum. Pode aparecer só febre. Aí você dá antitérmico. Pode aparecer só tosse. Você dá um antitosse. Não existe esse tal tratamento precoce que vai impedir que [a doença em] você agrave. Se [a doença em] você vai agravar, vai agravar com ele [tratamento precoce] ou sem ele. E isso, quando se agrava tomando essas medicações, vai te comprometer lá na frente, na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), porque seu fígado já vai estar intoxicado com uma série de medicamentos. A gente tem visto isso”, concluiu o especialista.

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