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Ataque a candidato a presidência pode mudar rumos das campanhas, que devem adotar clima de “trégua”

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Presidente do PSOL, Juliano Medeiros chama agressão a Jair Bolsonaro (PSL) de “triste incidente”, mas avisa que caso não anula divergências entre partido e deputado federal do Rio nos campos da política e das ideias

Depois do ataque sofrido pelo deputado federal do Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro (PSL), na última quinta-feira, 6, as equipes dos demais presidenciáveis iniciaram neste fim de semana uma série de reuniões internas para planejar o tom e os próximos passos da campanha que deve ter um clima de “trégua”.

Candidatos que produziram propagandas eleitorais combatendo frontalmente Bolsonaro, como é o caso do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), avaliam dar a “trégua” nos ataques a curto prazo, segundo informações divulgadas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), órgão oficial do governo federal.

Outro que deve adotar a “trégua” é o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (MDB), que não tem promovido uma campanha de ataque ao deputado federal, que está em recuperação no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, após o “incidente”, como chamou a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Rosa Weber, em nota divulgada ainda na quinta-feira.

A expectativa entre os presidenciáveis agora é que haja uma suspensão temporária do clima “belicoso” que vinha caracterizando a disputa, mesma avaliação do entorno do presidenciável Ciro Gomes (PDT).

O secretário-geral do partido, deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), concordou à EBC com o fato da agressão a Bolsonaro trazer um “efeito paralisante na campanha” de Alckmin e dos demais aspirantes ao Palácio do Planalto.

Ele defendeu que os próximos dias sejam dedicados a analisar os efeitos do que aconteceu do ponto de vista psicológico, a exemplo da morte de Eduardo Campos em 2014, então candidato à presidência pelo PSB.

“Todos nós estamos torcendo pelo seu pronto restabelecimento, mas estamos escolhendo o futuro do país. Acho que vai haver um momento de absorção [dos fatos] na eleição, que já ocorria em um ambiente muito ruim em função da crise econômica e da instabilidade política. Ainda vamos ver adequadamente [os próximos passos]. Tem que ouvir e sentir as ruas. Logo, logo a gente vai estar reconstruindo as linhas estratégicas da campanha”, afirmou.

Para o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, o candidato do partido, Guilherme Boulos (PSOL), manterá a sua agenda política com o objetivo de debater “propostas para o povo brasileiro”, sem “aliviar a barra” do adversário, como os candidatos da direita se mostram inclinados a fazer.

“O triste incidente desta semana não anula as enormes diferenças que temos. Bolsonaro segue candidato e nós continuaremos expressando as divergências no campo da política e das ideias, com o máximo respeito e transparência”, declarou Juliano Medeiros.

Candidata à vice na chapa de Ciro, a senadora Kátia Abreu (PDT-GO) publicou um texto defendendo que a “linguagem da violência” seja superada e com críticas à radicalização.

“É urgente desarmar os espíritos e direcionar a campanha para o debate de ideias. Além de investigar, esclarecer a motivação deste crime e aplicar severa punição. Eventuais divergências políticas não fazem de mim e Ciro Gomes, por exemplo, inimigos mortais. Ao contrário, elas nos complementam”, escreveu a candidata, no Facebook.

No centro do debate, o PSL, partido de Bolsonaro, sabe, desde que seu candidato foi gravemente ferido, que não poderá contar com ele nas ruas neste 1º turno e também reavalia sua campanha.

Num primeiro momento, os filhos de Bolsonaro, que disputam a Câmara e o Senado, chegaram a responsabilizar, em nota, “setores políticos e midiáticos” pelos violentos acontecimentos de Juiz de Fora, Minas Gerais.

O mesmo discurso tem sido adotado pela inflamada militância, e até pelo candidato a vice, General Mourão, que revelou que Bolsonaro lhe disse, em telefonema, que não era “hora de guerra”, mas de acalmar os ânimos.

Mourão e a família do presidenciável devem assumir sua agenda de compromissos pelo país e intensificar a campanha nas redes sociais. A Agência Brasil, ligada a EBC, entrou em contato com a assessoria de imprensa da candidata Marina Silva (REDE), que não retornou até o fechamento da reportagem.

A campanha do PT à presidência, que deve confirmar Fernando Haddad (PT) e Manuela D’Ávila (PCdoB) como substitutos de Lula (PT) na chapa da coligação pela presidência, disse que não se manifesta sobre as estratégias políticas internas.

Estratégias – A cientista política e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Helcimara Teles analisa que os candidatos têm que ter “cuidado”, a menos de 1 mês do 1º turno das eleições, marcado para o dia 7 de outubro.

Segundo ela, para que o episódio não transmita sinais ambíguos ao eleitorado, do ponto de vista estratégico, os adversários de Bolsonaro podem acabar reforçando o papel de vitimização e construir a “ideia do mito” caso deixem de criticar a tese de que ele é o candidato que tem expressado um discurso violento nas eleições.

“Ele representou a violência nos seus discursos quando foi, há 13 dias para o Acre, e falou que iria fuzilar os petistas. Vez por outra ele diz que ‘bandido bom é bandido morto’, é a favor do porte de armas. O ataque foi um absurdo para a nossa democracia. Mas se os candidatos se manifestarem só até esse ponto, vai parecer para a opinião pública uma confusão entre condenar um ataque e apoiar o Bolsonaro”, disse a professora

Helcimara Telles acredita ainda que a estratégia de pregar a pacificação pode ser um caminho viável caso parte do eleitorado esteja em busca de programas eleitorais que fujam dos ataques pessoais.

“A situação da morte de Eduardo Campos é semelhante no sentido de um desastre que altera as estratégias de todos os lados. A equipe de Bolsonaro vai apelar para as emoções. Os adversários têm que apelar para racionalidade”, analisa a especialista.

A cientista política analisa também que o momento destaca a crise das instituições políticas do país e da democracia, destacando que a enxurrada de discursos de ódio e a sede pela violência são problemas muito mais graves e profundos do que o ataque em si.

“Esse ataque, que nunca aconteceu na história política brasileira a um candidato a presidente, é apenas a ponta do iceberg de como a polarização e o ódio faz sentido agora. É a época da não política, um estado de guerra de todos contra todos”, avalia Helcimara.


 

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