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Da comunidade à urna: o vereador que pediu voto por e-mail e fez da qualificação sua trincheira política

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Denis Madureira troca o chão da periferia e o trabalho embarcado pela política, enfrenta dois anos sem renda e chega à Câmara defendendo autonomia como política pública

 

“Eu não vendo meu voto.”
A frase não surgiu como slogan. Foi ponto de partida.

Antes de ocupar uma cadeira na Câmara de Macaé, Denis Marques Ribeiro Madureira Sabino, 39, construiu sua narrativa fora dos gabinetes. Filho de origem humilde, cresceu no Morro de Santana, parte do complexo da Aroeira — território que, segundo ele, moldou sua leitura de mundo e seu entendimento sobre oportunidade.

“Sou macaense raiz. Minha formação vem dali. Não é discurso, é vivência.”

A política entrou cedo, mas sem cálculo eleitoral. Em 2008, ainda estudante, participou de grêmio. “Não era partido. Era organização dentro da escola.” Em 2010, ajudou um deputado federal da cidade. Em 2012, repetiu o movimento, já em eleição municipal. “Sempre por ideologia. Nunca por projeto pessoal.”

A primeira mudança de rota veio em 2014. Trabalhando com uma vereadora de outra cidade que buscava se tornar deputada estadual, diz ter visto “uma política possível”. No ano seguinte, um grupo de amigos decidiu lançar um nome para vereador. O escolhido recuou. Denis ficou.

“Não era para ser eu. Acabou sendo.”

A estreia, em 2016, foi improvisada e quase simbólica. Já iniciando sua ascensão no trabalho offshore, desembarcou na cidade um mês antes da eleição. Sem estrutura, sem dinheiro e sem tempo, fez campanha como pôde.

“Eu pedi voto por e-mail. Foi o que deu para fazer.”

Resultado: cerca de 500 votos e a marca de ter sido um dos mais votados do partido — sem romper a principal diretriz que repetiria nas campanhas seguintes: não comprar apoio.

Mas o ponto de ruptura não veio nas urnas. Veio dois anos depois.

Em 2018, decidiu pedir demissão do trabalho embarcado — onde havia construído carreira ao longo de quase oito anos, do almoxarifado ao planejamento.

“Eu entendi como um chamado. Pedi conta para viver política.”

A decisão teve custo imediato: dois anos sem renda fixa. A sustentação financeira veio da esposa, Rebeca Madureira, jornalista e hoje à frente da área de qualificação profissional do município como secretária do da atual gestão municipal.

“Ela segurou as contas acreditando no projeto.”

Em 2020, voltou às urnas. Sem máquina política e sem estrutura financeira robusta, fez 1.569 votos — 12º mais votado entre mais de 400 candidatos.

“Foi ali que eu entendi que dava para avançar.”

O avanço veio pelo Executivo. Após a eleição, foi convidado pelo prefeito Welberth Rezende para assumir a Secretaria de Qualificação Profissional.

“Eu não dominava a pasta. Mas eu sabia o que ela representava.”

Assumiu em meio à pandemia. Sem aulas presenciais, com limitações operacionais, apostou em cursos remotos. Ainda assim, diz ter conseguido estruturar uma política de escala.

“Formamos mais de 12 mil macaenses. E trouxemos cursos que nunca tinham sido oferecidos na cidade, como salvatagem e T-HUET. Cursos caros, inacessíveis para muita gente.”

A escolha da pauta não foi técnica. Foi biográfica.

“Eu só consegui trabalhar porque tive oportunidade de me qualificar. Eu sei o que isso muda.”

Ele relembra o início da trajetória: bolsa de estudos que recebeu no programa do radialista macaense Zezé Abreu, indicação para uma vaga, entrada no mercado offshore. “Quando cheguei à secretaria, entendi que precisava devolver isso para a cidade.”

A partir daí, a política ganhou um eixo claro: autonomia.

“Não existe maior política social do que tirar alguém da dependência e dar condição de gerar renda.”

A fala não é genérica. Denis descreve cenas recorrentes.

“Gente me para no supermercado e diz: ‘estou comprando aqui porque fiz um curso’. Isso muda tudo.”

A secretaria virou plataforma de expansão. O programa evoluiu para o “Qualifica Mais Macaé”, com polos descentralizados, hoje sobre a liderança de Rebeca, que tem o número de telefone dela gravado no celular de Denis como “Minha melhor escolha”.

“A lógica é simples: parar de obrigar a pessoa a ir até o centro. Levar o curso para dentro do bairro.”

A política pública, segundo ele, também responde a uma distorção histórica da cidade: empregos gerados localmente ocupados por trabalhadores de fora.

“Nada contra quem vem de fora. Mas faltava qualificação para quem já estava aqui. A gente começou a fechar essa conta.”

Em 2024, deixou a secretaria para disputar novamente. Desta vez, com estrutura política mais consolidada, foi eleito vereador com 3.045 votos — oitavo mais votado da cidade.

A mudança de função alterou o método, não o foco.

“No Executivo eu entregava. No Legislativo eu penso regra, política, estrutura.”

Os primeiros movimentos na Câmara seguem o mesmo eixo. Um dos projetos cria mecanismos de acesso à qualificação para pais de crianças com transtorno do espectro autista.

“Essas famílias vivem uma rotina que não cabe dentro de fila, prazo ou inscrição padrão.”

Outro projeto reserva vagas em cursos para mulheres vítimas de violência doméstica.

“Muitas não conseguem sair da relação porque dependem financeiramente. Se você dá uma profissão, você cria saída.”

A atuação, porém, não se restringe à qualificação. Denis amplia o discurso para saúde, educação e articulação política.

“Macaé precisa de representação forte fora daqui. Tem coisa que não se resolve só no município.”

Ele também insere sua trajetória dentro de um contexto de transformação recente da cidade.

“Macaé mudou muito. Quem compara antes e depois vê um salto. Organização, investimento, capacidade de execução.”

A votação distribuída reforça o argumento de que não depende de um reduto específico.

“Tive voto na Aroeira, no Aeroporto, no Lagomar, no Centro. Não foi concentrado.”

O método de contato segue direto. Redes sociais, rua, conversa.

“Eu não mudei meu estilo de vida. Isso aqui é passageiro.”

Mas há um ponto que o incomoda: a distância entre população e Câmara.

“Os vereadores estão na rua, mas a população ainda participa pouco das sessões. Isso não mudou nem quando tentaram ajustar horários.”

No primeiro mandato, Denis evita construir uma imagem de acerto absoluto.

“Eu posso errar. Não sou máquina.”

A frase não encerra. Expõe um cálculo político.

Errar, para ele, não é risco — é parte do processo. O que não pode, diz, é perder o eixo.

“Meu compromisso é acertar mais do que errar. E trabalhar para que quem está lá embaixo tenha oportunidade real.”

A política, nesse caso, não aparece como fim. Mas como ferramenta.

E, para Denis Madureira, ela continua, afirma, sendo usada como começou: sem estrutura, sem atalhos — e, segundo ele, sem venda.

 


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