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Mais alguns Silvas

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Com medo de que a droga mate o filho do rico, a sociedade mata o filho do pobre – a frase não é minha mas adoraria que fosse, li no twitter e de tão impactado não prestei atenção no perfil e hoje não consigo fazer a devida menção. Peço desculpas.
No último final de semana nove jovens foram mortos na saída de um baile funk. Muita investigação ainda deverá ser feita, mas uma coisa é certa: as vítimas não eram criminosos. As nove vítimas eram jovens que foram se divertir em um baile na periferia de São Paulo. Foram fazer aquilo que muitos de nós fazemos sem medo nenhum.

Dizer que o local que eles estavam é “dominado” pelo tráfico, como se isso demonstrasse uma imprudência da parte deles, é no mínimo injusto, pois é como se lhes fosse sonegado o direito a se divertir no local que moravam. O Estado não apresenta teatro, cinema, música ou esporte, mas na hora de reprimir se faz presente.

Eles ouviam funk sim, porque o funk é o que faz parte do cotidiano deles, e não há mal nenhum nisso. Jovens com muito dinheiro ouvem funk o tempo todo, e nunca foi um problema. Pelo contrário, é estimulado cada dia mais em eventos “high society” com muita bebida alcoólica e drogas. Sim, muitas drogas.

O combate ao tráfico de drogas é o grande motivador de ações como a que aconteceu em Paraisópolis. Apesar de não ser uma grande novidade, é importante deixar claro que o consumo e venda de drogas ocorre também nas festas na Marina da Glória e também no Rock in Rio, entretanto a abordagem é completamente diferente. Eu faço um esforço tremendo e não consigo me lembrar de nenhuma “dura” da polícia na porta desse tipo de evento.

Não há porque a sociedade trata, em relação ao tráfico, o jovem branco como vítima e o negro como culpado. Um preconceito institucionalizado que acarreta em tragédias como a que acabamos de viver. Imagine um adolescente que trabalha ou estuda a semana toda e que no sábado pensa em sair para se divertir com seus amigos. Dá uma ligada para alguns, bota uma roupa bacana e combina pelo whatsapp. Chega lá, aproveita bastante e quer ser o último a sair. Nesse baile que ele vai tem uma galera que usa ou vende droga, mas ele não curte.

Ele só quer aproveitar o sábado. A Polícia chega, e há tiros, confusão e ele simplesmente é pisoteado. Esse jovem poderia ser eu, você, seu filho ou filha. Não foi. Foram eles e não nós, talvez por condições financeiras, cor de pele ou bairro em que moramos.
Essa trágica história fica ainda mais triste pois não é nenhuma novidade.

Um clássico do funk carioca já denunciava a violência que enfrenta o jovem pobre que quer se divertir – “E o pobre do nosso amigo, que foi pro baile curtir, hoje com sua família ele não irá dormir. Era só mais um Silva que a estrela não brilha. Ele era funkeiro, mas era pai de família”. Quantos “Silvas” vamos precisar perder para perceber que isso está errado?

Daniel Raony
Advogado , Pós-graduado em Gestão de Políticas Públicas e aluno do RenovaBR Cidades.
E-mail: danielraony@hotmail.com
No instagram e no facebook: Daniel Raony

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