Parlamentares reconhecem avanço, mas apontam pontos a aprimorar na rede de proteção, defendem mais estrutura e reforçam papel da presença feminina no Legislativo
Macaé chegou a 16 meses sem registros de feminicídio. O dado é relevante, mas, para as quatro vereadoras do município, não encerra o debate — abre outro. A ausência de mortes convive com tentativas de assassinato, subnotificação e desafios na rede de acolhimento. Em comum, elas defendem a continuidade das políticas públicas e o fortalecimento da estrutura existente. Em paralelo, carregam trajetórias distintas que ajudam a explicar o tom e o foco de cada uma.
A vereadora Liomar Queiroz (Agir) parte da experiência prática para sustentar que o avanço é resultado de uma articulação mais ampla. “Não é só o poder público, é a sociedade junto. Tem mais consciência, mais informação”, diz. Ela aponta o envolvimento direto da gestão municipal como fator decisivo, mas não evita ponderamentos. A ausência de uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) mais estruturada, afirma, ainda é um ponto a avançar. “Faz falta. Isso ajudaria a enfrentar todos os tipos de violência.”
Liomar chama atenção para o que não aparece nos números. “Muitas mulheres não denunciam. Existe medo, existe julgamento.” Para ela, identificar sinais prévios de violência é tão importante quanto agir depois. E destaca um ponto recorrente entre as parlamentares: a autonomia financeira como proteção. “Quando a mulher tem independência, ela tem mais chance de sair dessa situação.”
Se Liomar olha para a base do problema, Leandra Lopes (PT) amplia a análise a partir da estrutura do Estado. Advogada, com duas décadas de serviço público e passagem pela Secretaria de Educação, ela vê o dado como uma conquista, mas com limites claros. “É um sucesso no sentido de não termos mortes, mas a violência continua acontecendo todos os dias.”
Leandra destaca a criação e o fortalecimento da Secretaria da Mulher como um avanço, além de políticas como o auxílio financeiro para mulheres em situação de abandono. Ao mesmo tempo, aponta a necessidade de ampliar estruturas de acolhimento. “A mulher denuncia e muitas vezes precisa voltar para o mesmo ambiente. Isso não pode acontecer.” Como alternativa, defende soluções imediatas, como hospedagem temporária em hotéis ou casas de acolhimento.
Na atuação legislativa, ela tem investido em medidas práticas. Uma lei de sua autoria obriga síndicos a denunciarem casos de violência em condomínios. Também apresentou proposta para combater a misoginia, inclusive no ambiente digital. “A política pública precisa acompanhar a realidade”, afirma. Para Leandra, a presença feminina na Câmara não é simbólica. “É cultural. A gente impulsiona essas pautas.”
Com trajetória na gestão da saúde, onde atuou na média e alta complexidade e na direção do Hospital Público de Macaé, a vereadora Dra. Mayara Rezende (Republicanos) lê o cenário com foco na integração entre áreas. “Esse resultado vem de um trabalho contínuo, estruturado”, diz. Para ela, segurança pública, saúde e assistência social atuam de forma articulada, o que ajuda a prevenir casos mais graves.
Mayara ocupa hoje a Procuradoria da Mulher na Câmara e relata atuação direta no encaminhamento de denúncias. Também aposta no uso de dados. “Com o observatório, conseguimos mapear áreas de risco e agir com mais precisão.” A vereadora lista os principais obstáculos enfrentados pelas vítimas: medo, dependência financeira e emocional. E reforça a necessidade de políticas de qualificação. “Autonomia é proteção.”
Ela também destaca o momento político do município. “Quatro mulheres na Câmara fazem diferença. A gente vive isso na prática.” Ao lembrar da ex-vereadora Izabella Vicente, hoje no Executivo, reconhece uma trajetória construída ao longo dos anos. “Não começou agora.”
A mais jovem do grupo, Manu Rezende (MDB), eleita em 2024 com 23 anos, traz outro recorte: o geracional. Mulher mais votada da história da cidade, ela vê o indicador com cautela. “É positivo, mas não dá para relaxar.” Para Manu, as tentativas de feminicídio recentes mostram que o problema permanece. “É um alerta.”
Ela aponta o medo e a falta de informação como barreiras para a denúncia e defende campanhas mais incisivas. “A gente precisa quebrar a cultura de que ninguém deve se meter.” A vereadora também chama atenção para o aumento de casos envolvendo mulheres mais jovens. “Tem que olhar para isso com seriedade.”
Apesar das diferenças de abordagem, há convergência entre as quatro: A notícia é positiva e motivo de comemoração sim, mas a rede de proteção precisa avançar. E a presença feminina no Legislativo, inédita em número, tem peso nesse processo. “A gente atua junto, apresenta projetos, conversa com o Executivo”, resume Liomar.
O resultado de 16 meses sem feminicídio é tratado como marco — e a atenção dada à pauta pelo prefeito Welberth Rezende também —, mas não como ponto de chegada. “Existe um comprometimento claro do governo com essa agenda, e isso faz diferença no dia a dia”, afirma Mayara. “É sobre preservar vidas”, completa. Leandra reforça: “Mas o trabalho continua.” Manu resume: “É vigilância constante.” E Liomar conclui: “Ainda tem muito a fazer.”
No meio do consenso, fica um sinal claro: a pauta unifica, mas não uniformiza. Cada uma fala a partir do seu lugar — e é essa soma de olhares que sustenta o avanço e expõe o que ainda precisa evoluir.
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