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Em entrevista à Revista Divercidades, Wanderley Gil relembrou a carreira com melhores cliques registrados em Macaé

Daniela Bairros

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Daniela Bairros

Antes de começar sua jornada de trabalho na redação do jornal O Debate, como fotógrafo, Gil, quase que diariamente, pedalava nas orlas das Praias dos Cavaleiros e Pecado, logo cedo, às 5h. E nestes locais, com os primeiros raios solares, fazia seus registros das belezas naturais de Macaé. Eu, como os demais colegas, ficava encantada. E eu me lembro que um dia eu falei para ele: Gil, você tinha que se inscrever nestes concursos de fotojornalismo. E ele respondia: é mesmo, vou fazer isso. E depois que ele chegava na redação, saiamos para as pautas.
Gil é considerado uma das referências entre os profissionais da imprensa regional. Foram mais de 40 anos de carreira. Além  do brilhante profissionalismo, Gil, ou Leley, era muito carismático.
O ano era 1969, aos 13 anos de idade. Na adolescência aprendeu o ofício da fotografia auxiliando seu pai que também era fotógrafo conhecido em Macaé. “Meu pai era uma espécie de ‘Professor Pardal’ da fotografia. Ele tinha um laboratório de revelação dentro de casa. Eu, muito curioso, estava sempre disposto a aprender. Passava horas prestando atenção em tudo que ele fazia. Até que um dia ele resolveu me colocar como seu ajudante. Na época, a revelação de fotos era feita de forma artesanal”, contou em entrevista à Revista Divercidades.

Ao perceber que o filho tinha aptidão pela fotografia, Wanderley ganhou de presente sua primeira câmera fotográfica: uma Pentax. Na época, era considerada uma das melhores câmeras de fotografia do mundo. Por meio dela, de maneira informal, Wanderley reunia os amigos em sua casa e fazia registros dos encontros. Com o passar dos anos começou a perceber que poderia ter o trabalho como “ganha pão”. Já no fim da década de 70 se mudou para o Rio de Janeiro e começou a ganhar a vida como fotógrafo profissional na capital fluminense. Foi daí que ele conheceu outra vertente da fotografia sem entender muito bem: o fotojornalismo. Ele percebeu que poderia retratar o cotidiano das pessoas e contar suas histórias através das lentes. Passou a comercializar suas fotos para o Jornal O Dia. Cobriu vários acontecimentos naquela época e conheceu pessoas que foram marcantes na sua trajetória.

De volta para Macaé, no início dos anos 80, trabalhou no extinto Jornal O Século, importante veículo de resistência ao golpe militar ao lado do jornalista e fotógrafo Romulo Campos. Sofreu retaliações, mas sempre muito engajado. Participou de movimentos sociais, políticos e ambientais. “Além de grande amigo, Gil é um ícone no que faz. Muito rigoroso com os enquadramentos, ele trata com muita criatividade seu trabalho. Eu lembro bem que uma de suas fotos jornalísticas que me chamou a atenção foi a de uma criança sendo atacada por um cão, se não me engano na praia da Imbetiba. Uma cena chocante diante da violência do ataque. Gil possui um olhar crítico em tudo que faz”,  descreveu Romulo.

Em uma de suas coberturas jornalísticas, o fotógrafo destacou o grave acidente com o avião Bandeirante da TAM que se chocou com o Morro São João em São Pedro da Aldeia, em julho de 1984. “Nesse acidente, 14 colegas jornalistas perderam a vida. Eles estavam indo fazer uma reportagem sobre a extração de petróleo na Bacia de Campos. Eu fiquei muito chocado e lembro que precisei subir até o alto do morro onde o avião bateu. Foram muitas horas caminhando. A cena era devastadora. Fiz as fotos e na volta ainda de noite nosso grupo se perdeu na mata. O helicóptero do exército precisou nos orientar para voltar pra casa”, conta.

No auge da carreira, em 1991, foi chamado para integrar a equipe do Jornal O Debate. Ele é descrito pela sua lealdade, generosidade e solidariedade com os colegas de profissão. "Wanderley faz parte da memória do fotojornalismo de nossa cidade. Trabalhei com ele por quase uma década e todos os dias a postura era a mesma, valorizando e respeitando os fatos e os colegas de trabalho. São dele registros de grandes momentos da história do município e da região, numa atuação que percorre, ainda hoje, todas as frentes de notícia. Confiança e comprometimento são, certamente, conceitos que podem ser destacados quando nos remetemos a esse querido colega. Um profissional e tanto!”, elogiou a jornalista Luciene Rangel.

Em 2005 foi diagnosticado com mal de Parkinson, doença que atinge o sistema nervoso central. Apesar de controlada, Gil não parou de fazer aquilo que mais gostava que é a arte de fotografar. Recebeu duas homenagens da Câmara Municipal de Vereadores de Macaé pela dedicação ao trabalho, valorização da cultura e da paisagem urbana da cidade. No seu acervo de fotografia, são mais de 10 mil fotos de paisagens, sua maior paixão.

Vida pessoal

Gil deixa esposa, dois filhos e um neto. Era considerado uma pessoa muito tranquila e companheira. Sua atual esposa, Eliane de Sá Azevedo, 77 anos, descreve o fotógrafo como uma pessoa modéstia e carinhosa. “Eu conheci Wanderley durante uma matéria que ele foi fazer na época em que trabalhava em um salão de beleza. Desde então ele ia lá todos os dias para bater papo. Nem chegamos a namorar, foi tudo muito rápido. Ele sempre foi assim, atencioso e muito querido. Tem coisas que a gente nem consegue explicar. Não é atoa que estamos juntos há mais de 21 anos.”

Sempre aos fins de semana, Leley dividia seu tempo com suas duas paixões: a família e a fotografia. Estava se dedicando a um projeto pessoal que é fotografar paisagens em Macaé. Sempre foi apaixonado por isso. Aos finais de semana colocava a câmera no braço e saia por aí registrando tudo que considerava belo. Queria mudar um pouco e partir para esse conceito. Participou de uma exposição onde reuniu fotografias de outros 14 profissionais do ramo. Foi gratificante. "Enquanto puder trabalhar eu não quero parar.”, finalizou.

Informações extraídas da Revista Divercidades.

Crédito: Rui Porto Filho

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