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Três atos da década de 1960 em Macaé

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1º ato

Na década de 1960, época da minha adolescência e juventude, não sei se as pessoas que aqui viviam irão fazer memória, mas quem tem a minha idade não tem como não lembrar: nós tínhamos o hábito de aos domingos assistirmos a sessão de cinema das seis horas no Taboada, cine-teatro inaugurado em 05/04/1931 pelo empresário luso-espanhol Manuel Guilherme Taboada, e assim que acabava a seção, fazíamos um passeio (footing) da Rua Marechal Deodoro, esquina com a Rua Direita, hoje conhecida com a Avenida Rui Barbosa, até na Câmara Municipal. Os rapazes caminhavam em uma direção e as meninas em outra para se encontrarem, olharem de frente, paquerarem... Era uma experiência muito interessante. Hoje isso se perdeu, não existe essa coisa muito mais simples e natural. Não havia a preocupação exagerada com o barzinho, com a bebida. Lógico que nós bebíamos (gostava e gosto muito de uma cerveja gelada), mas não havia essa fissura de ir para Cavaleiros ficar bebendo, bebendo, bebendo... Era uma experiência de vida muito mais pura, muito mais interiorana, sem os desafios loucos que o consumismo nos impõe. Era uma vida menos complicada, com mais tranquilidade e poucos desafios.

 

2° ato

Aqui em Macaé não havia essa variedade de comércio, de empresas que existe hoje. O comércio atendia as necessidades básicas, fundamentais, você para adquirir alguma coisa diferenciada tinha que ir à capital. Aqui não se encontrava um comércio diversificado, porque a demanda era muito pequena e o potencial aquisitivo do povo não era muito grande. O empregador em Macaé, quem era? A Prefeitura Municipal de Macaé e a Rede Ferroviária Federal, sociedade anônima criada em 30/09/1957, conhecida como Leopoldina. Não existiam grandes expectativas de emprego e, lógico, os salários de prefeitura e de rede ferroviária não eram altos, então o poder aquisitivo da população macaense não era tão alto como é/foi hoje com o advento da Petrobrás e das empresas que gravitam/gravitavam em torno da mesma.

 3º ato

Na rua onde nós morávamos, Rua Dr. Bueno, 181, bairro da Imbetiba, só a nossa casa possuía telefone, o número era 531. Tínhamos como vizinho um militar reformado que, juntamente com sua esposa, achavam-se no direito de usar o telefone a qualquer hora em nome da “gloriosa”, do Golpe de 1964..  Nessa época aconteceu um fato muito interessante conosco. Um primo, jornalista e atualmente pesquisador aposentado da Fundação Getúlio Vargas, Ib Teixeira, filho de Zoila Abreu Teixeira e Álvaro Teixeira, na época deputado pelo antigo Estado da Guanabara, estava sendo perseguido no Rio de Janeiro. Nós trouxemos ele aqui para casa e o escondemos num quarto que ficava ao lado do telefone e quando esse major reformado do Exército chegava para telefonar, sempre para denunciar alguém, o Ib estava escondido ali do lado. A cada visita do Major era um “Deus nos acuda”. Depois de um tempo, o Ib foi levado para a Areia Branca, distrito de Cachoeiros de Macaé, e, posteriormente, para a Embaixada do Chile no Rio de Janeiro.

Professor José Augusto Abreu Aguiar

 

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