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Domésticas e a Disney

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Que o governo Bolsonaro iria implementar uma agenda liberal, ou ultraliberal se preferir, não é novidade para ninguém. Na campanha isso já ficava claro e a escolha de Paulo Guedes deixava isso ainda mais evidente. Bolsonaro ganhou as eleições e a escolha do Brasil foi essa.

Paulo Guedes é experimentado no ramo financeiro e teve a oportunidade de estudar numa das principais universidades de economia no mundo que fica nos EUA, mais precisamente em Chicago. O ministro conhece bem os EUA, não há dúvidas nisso, mas parece que ele acha que nem todo brasileiro tem direito de conhecer.

Após ter chamado os servidores de parasitas, Paulo Guedes deu mais uma declaração que demonstra qual a construção de Brasil que ele acredita ser a melhor. O ministro disse: “todo mundo indo para Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia”. Como é de costume após toda declaração estúpida ele tentou se justificar, dizendo que com o dólar baixo as pessoas iam 3 ou 4 vezes ao ano na Disney e deixavam de conhecer lugares no Brasil. Pois bem, eu conto ou vocês contam?

Ministro, essa não cola. Para uma doméstica ir a Disney com sua família, não precisa só de dólar baixo, precisará também de anos de economia e esforço para, quem sabe, ter essa oportunidade uma vez na vida. A declaração foi de uma baixeza tão grande que pode ser colocada junto de outras como “o aeroporto está parecendo uma rodoviária” ou “foi só ganhar um dinheiro que neguinho acha que é gente”. Elas mostram a visão de uma elite brasileira que quer dividir o povo em castas, em que os ricos merecem, devem e podem usufruir dos maiores prazeres e melhores lugares possíveis, enquanto o pobre deve contentar-se com aquilo que o “destino” lhe reserva.

Para um liberal seria mais prudente investir em um “American Dream” tupiniquim, dizendo que não só as domésticas, mas todos os brasileiros poderiam chegar ao sucesso e ir a Disney com seus próprios recursos, através dos seus esforços e, quem sabe, empreendendo. Eu tenho severas dúvidas e críticas a esse pensamento. Não acho que seria tão simples assim no país que é tão desigual, mas convenhamos que seria um discurso mais coerente. Não. Paulo Guedes não conseguiu nem dizer isso. A vontade de estar só entre os seus na Disney, Times Square ou Champs elysee gritou e da sua boca saiu o resumo de um pensamento tacanho que vem se desenvolvendo desde o primeiro dia que escravizaram um negro no Brasil. Quer ouvir uma barbaridade? Pergunta no Posto Ipiranga.

 

Daniel Raony

Advogado, Pós-graduado em Gestão de Políticas Públicas e formado no RenovaBR Cidades.

E-mail: danielraony@hotmail.com

No instagram e no facebook: Daniel Raony

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