Levantamento obtido pelo g1 aponta crescimento de personagens artificiais usados para influenciar debates políticos sem aviso ao público
Perfis gerados por inteligência artificial passaram a ocupar espaço crescente no debate político brasileiro nas redes sociais. Um levantamento do Observatório das Eleições identificou ao menos 18 personagens artificiais usados para comentar política entre janeiro de 2025 e abril de 2026. Em 61% dos casos analisados, não havia qualquer aviso informando que o conteúdo havia sido produzido por IA.
Os dados, divulgados pelo g1, fazem parte de uma pesquisa realizada pelas organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab. O estudo aponta que os avatares digitais vêm sendo usados para simular eleitores comuns, comentaristas populares e figuras de apelo emocional capazes de ampliar o alcance político nas plataformas.
Entre os casos de maior repercussão está o da personagem “Dona Maria”, uma idosa criada artificialmente que viralizou com vídeos críticos ao governo federal. A personagem acumulou centenas de publicações e se tornou alvo de ações apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral por partidos ligados à base governista.
Segundo os pesquisadores, a estratégia explora a aparência de espontaneidade e autenticidade para influenciar o debate público. Em muitos casos, a origem artificial dos conteúdos só foi percebida após análises técnicas que identificaram falhas visuais, distorções em imagens e padrões robotizados de voz.
Outro personagem citado no levantamento é “Seu Zé da Feira”, avatar que ganhou circulação entre perfis ligados à esquerda com vídeos favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e críticas a partidos de direita.
O estudo também aponta que os avatares digitais passaram a funcionar como instrumentos de desinformação política. Em 14 dos 18 casos mapeados, os conteúdos continham alegações falsas ou enganosas envolvendo políticos, instituições públicas ou o sistema democrático brasileiro.
As publicações circularam principalmente no TikTok e no Instagram, mas também apareceram no YouTube, Facebook, X e Kwai. Entre os alvos dos conteúdos estavam o ex-presidente Jair Bolsonaro, ministros do Supremo Tribunal Federal e integrantes do governo federal.
As regras aprovadas pela Justiça Eleitoral para as eleições de 2026 determinam que conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial devem trazer aviso explícito sobre o uso da tecnologia. Mesmo assim, a pesquisa mostra que grande parte dos perfis segue operando sem qualquer identificação visível ao público.
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