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O Pecado e a Cultura

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Venho refletindo muito sobre a cultura e suas implicações em nossas vidas, sobretudo a partir de uma experiência vivida.

Um dia, em uma cidadezinha de Minas Gerais, ao realizar um trabalho missionário, vivi um fato bem interessante. Durante cinco noites seguidas, ao presidir a Celebração da Palavra na Igreja Católica local, uma moça de mais ou menos 23 anos olhava-me sem parar. Seus olhos pareciam querer perguntar alguma coisa, pedir algo. Na sexta-feira, terminada a Celebração, dirigi-me apressado ao seu encontro e perguntei-lhe diretamente, sem meias palavras, a razão de seu olhar tão intensamente voltado à minha pessoa. Ela, sem nenhum constrangimento, disse que desejava confessar pois estava vivendo em pecado. De imediato expliquei-lhe que não poderia fazê-lo por não ser padre, por não possuir o sacramento da Ordem que me facultaria ouvi-la em confissão. No entanto, de bom coração poderia escutar sua aflição e, quem sabe, poderia ajudá-la a encontrar um caminho de reflexão capaz de iluminá-la naquele momento.

Fomos para frente da igreja, sentamos em um banco da praça e começamos a conversar. Passado um tempo, quebradas as barreiras que interferem na comunicação inicial entre duas pessoas recém conhecidas, perguntei-lhe a causa de estar vivendo em pecado. A resposta surpreendeu-me, causou-me grande espanto: “vivo em pecado por estar negando o sacramento ao meu esposo. ” Na hora, incapacitado pela pequena experiência sobre a cultura do interior de Minas Gerais, não entendi o que ela queria dizer. Passado o espanto, a surpresa, compreendi o que estava velado na sua resposta. Negar o sacramento era não ter relações sexuais com o marido.

Continuei conversando, falando sobre o pecado e tentando mostrar-lhe que o mesmo significa a violação de uma atitude, algo interno, que nos faz agir provocando feridas, dores, violências contra o mundo, as pessoas e contra nós mesmos. Nesta linha de raciocínio procurei saber quais as razões que a levaram a não manter relações com seu esposo. Ela, depois de muito relutar, traçou um perfil nada agradável do mesmo.

Disse que ele, sujeito do campo, sem nenhum estudo, trabalhador com sonhos usurpados, vivia, como muitos de sua cidade, um cotidiano identificado com o álcool, com as aventuras extraconjugais, com o chegar tarde em casa, com a falta de diálogo e com a visão de que a mulher, a de casa, existe para a submissão e para a execução dos serviços domésticos. Disse ainda que tal comportamento era a motivação para negar o sacramento. Naquele instante, compreendi com angústia e dor, o quanto sofria aquela menina por viver uma situação tão contraditória. Seu lado humano, de mulher, violentada em sua dignidade, queria algo que seu lado espiritual, sustentado em uma cultura machista, negava.

Continuamos conversando. Esforcei-me por fazê-la entender que se existia alguém vivendo em pecado, ferindo o outro, não era ela e, sim, o seu marido. Reforcei a idéia que era preciso um acompanhamento especial para o seu caso; que ela deveria, caso desejasse, convencer seu esposo a aceitar ajuda de alguém que mostrasse a verdadeira face do sacramento do Matrimônio e que valeria a pena, como sempre valeu, preservar o amor que um dia os aproximou e os tornou marido e mulher, seres do respeito e da responsabilidade de um para com o outro. De nada adiantou...

Ela, sem querer entender, impassível, com um peso enorme na consciência, teimava em afirmar que vivia em pecado. E, teimando, partiu em direção a sua casa, ao encontro de suas contradições, com o olhar voltado para o chão, certa que naquela noite não iria mais pecar, aceitaria sua condição de submissa a uma cultura injusta e preconceituosa.

Professor José Augusto Abreu Aguiar

 

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